Thursday, December 01, 2005

1975


O sol foi entrando de leve pela janela até encontrar seu rosto. O reflexo o fez levantar-se rapidamente. Foi até o banheiro e deu a clássica olhada matutina no espelho. É, talvez não estivesse tão mal assim. Vestiu-se apressado e foi ao trabalho sentindo-se estranhamente disposto.

Ao contrário dos outros dias, executou seu massante serviço sem reclamações, e conseguiu até assobiar enquanto checava uns gráficos que mostravam o faturamento da empresa durante o mês em que estivera fora. Se inventaram alguma coisa melhor que férias ainda não apresentaram o projeto. Devem estar guardando para o Natal.

"Feliz ,hein? - disse a moça do cafezinho cujo nome ele não conseguia lembrar. Tinha cara de Patrícia.
"Pois é" - sorriu.
"E diferente." - ela parecia assustada enquanto saia da sala

Como assim, diferente? Ele se levantou e quase escorregou na bainha grande da calça. Porcaria vagabunda. Deve ter descosturado. Foi tomar um gole d'água e sentiu um braço segurando o seu.

"Procurando alguém, rapaz? Essa área é reservada. - era o Souza, da tesouraria.
"Deixa de brincadeira ,Souza." - disse entre um sorriso.
"Quem te deixou entrar?" - Souza não parecia estar brincando.
"Me solta, porra, você tá me assustando." - ele empurrou o amigo com a manga do paletó que cobria sua mão.
"Ô Pereira, vem cá um instantinho". - Souza chamava o segurança.

Desnorteado, foi até a porta do elevador e entrou, apertando o botão do térreo. Deu um pulo ao encontrar no espelho um jovem usando um paletó muito grande para o seu tamanho. O que aconteceu? O que aconteceu?

O elevador chegou ao térreo e ele correu mais, puxando com força a barra do terno já muito maior que antes. Tudo parecia grande e distante. As pessoas riam dele. Apontavam. Tinha de chegar em casa. Precisava. Antes que. Preferia nem pensar.

Pegou um táxi. O motorista parecia perplexo:

"Está sozinho, garoto? Cadê a sua mamãe?"

Tentou xingá-lo, mas sua voz soou fina. Voz de criança. Só conseguiu dizer o nome da rua e jogar uma nota alta na mão do motorista.

Saltou rápido do carro e tentou chegar ao saguão do prédio. Distante. Muito distante. Tentava, em vão, alcançar o botão do elevador ante o olhar assombrado do porteiro. Depois do terceiro pulo correu o mais rápido possível para as escadas. Não conseguia subir direito, tinha de abaixar-se e colocar as mãos. Uma por uma. Depois, nem isso.

Se viu coberto por um grande pedaço de pano. Olhou com a turva visão seus pequenos dedos e descobriu-se subitamente interessado por eles. Estariam ali há muito tempo? Passou a língua por dentro da boca, mas tudo que sentiu foi uma gengiva sem dentes. Vários vultos amontoaram-se ao seu redor. Imensos.
"Um bebê." - disseram as vozes. Distantes.

4 Comments:

Blogger Marguinha said...

Ei..tenho gostado dos desfechos dos teus contos. Eles andam transcedendo a realidade e confundindo-se com a mesma de forma tão louca e boa ;) Parabéns =******
E gostei do novo espaço simples e preto.

10:16 AM  
Blogger Ordisi Raluz said...

Márcio Gulliver. Muito bom. Abrs.

11:16 AM  
Anonymous Abud said...

chance de ouro esta......
imagina poder viver tudo de novo? tomar algumas decisões, não adotar outras, enfim, uma bola extra da vida......eu quero. Abração meu véio.

5:23 AM  
Anonymous Márcia(clarinha) said...

uau!!que viagem fantástica!!
lindo dia meu querido!!
beijossssssss

8:25 AM  

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