Wednesday, April 12, 2017

Uma toada para a lua cheia

                                     
 La luna me esta mirando, yo no sé lo que me ve
                                                                                                 Simon Diaz

A verdade era que ninguém podia dizer com muita certeza onde ficava o povoado. Muitos se perderam ao procurá-lo. Aqueles que eram crianças quando a vila sumira, já tinham morrido. Os mais novos, pensavam nela apenas como sendo assim uma lenda que desapareceu no tempo, uma história que alguém contou.
Falavam de um lugarejo de pequenos comerciantes e pescadores. Os que viviam do mar não tinham do que reclamar: as areias eram refletidas por uma eterna lua cheia. Não sabiam explicar, mas nas noites de lá, a lua nunca minguava, a maré nadava alta e os peixes, abundantes.
Até que, meio por acaso, numa das maiores tempestades que se teve notícia, um homem, bem dizer, pois largo como a proa de um barco, invadiu - lhe as areias, carregando no ombro uma mulher, e nas mãos uma reluzente âncora. Dizem que a força dos seus passos sacudiu as jangadas adormecidas e rachou com força o sino da igreja.
Sem muitas explicações ou pedidos de licença, abrigaram-se em um afastado casebre velho, então abandonado. O que se conta é que ele limpou o que pôde naquela mesma noite, e deixou a âncora na porta, como uma lembrança do que se passou. A mulher, sempre de negro, com a chita velha esparramada pelo corpo, acabou por incender todas as suposições da aldeia, pois nunca foi vista além dos limites da propriedade, trazendo-lhe o marido tudo o que fosse necessário.
O homem logo arrumaria emprego de pescador; seu tamanho o ajudaria a puxar as redes, foi o que lhe disseram os mais velhos. Mas também assustaria os peixes, sussurravam os mais jovens. E acabou por abandonar o serviço quando um barco afundou assim que ele tentou subir, na sua primeira viagem de trabalho.
Os que sobrevivem em acanhadas comunidade, porém, sabem. As vidas, em verdade nunca se separam, como se o povoado, só junto, fosse assim o cardume, pra cima e pra baixo por dentro do mar. E querendo ser cardume, uma vizinha, procurou puxar um pouco de conversa, recostada ao muro, angustiada com aqueles que se afastavam. Deu o azar, porém, de ter sido surpreendida em algo que nem sabia que era proibido.
Com o estrondo dos pés ribombando na areia da praia, o homem arrastou a esposa para dentro, pelos cabelos, e deu-lhe uma surra que foi ouvida em toda a vila. Em verdade, porém, o que chamou mais a atenção de todos foi o que não se ouviu. Tapas, socos, sim, mas nunca gritos femininos ou mesmo pedidos de clemência.
Desde então ambos permaneceram isolados, tanto dos outros moradores como das plantas ou animais. Mesmo a luz do sol insistia em não brilhar sobre a casa, como se também tivesse medo daquele homem, quem sabe?
Perdidos, os moradores já não sabiam o que fazer, e souberam menos ainda quando começaram a perceber gordas lacraias, escorpiões e imensas baratas cobrindo as paredes do lugar sempre depois das rumorosas brigas do marido. A mesma vizinha, agora mais curiosa que caridosa, esperou a seguinte, e depois que o marido saiu, esgueirou-se pela janela com cuidado, e viu o que não queria: a mulher sentada na cozinha, com um balde entre as pernas magras, cuspindo dentro dele os animais que lhe cobririam as paredes, para depois arrastarem-se lentamente de volta ao vaso, o qual, já pequeno, transbordava a cada nova golfada negra.
Atônita, correu até o mercado e precisou, ou quis, contar a história. O povoado quedou-se bastante alarmado, sim, mas limitou-se a balançar as cabeças, mastigando a sua indignação. Quem iria enfrentar um homem que arrastou uma âncora? Todos se calaram, rogando em silêncio por uma solução.
Até que um dia, sem aviso, decidiu amanhecer mais rápido do que de costume. Os pescadores permaneceram em suas casas: o mar andava revolto como nunca, negando qualquer espécie de invasão. Apenas seus filhos, ainda livres, se aventuraram a brincar, rolando suas pequenas conchas na beira d´água.
 O sol já começava a querer se esconder quando as crianças correram por entre os portões desesperadas; tentando, aos soluços, contar uma história sobre um homem que tinha surgido de dentro das ondas e caminhado até a casa velha da mulher que cuspia escorpiões. Os pais emudeceram, assustados, preferindo desacreditar os pequenos. Mas fecharam-se em portas e janelas, como em uma estudada prece.
 Na única casa do povoado que não era coberta por plantas, a mulher varria a calçada, como se esperasse uma visita que não demorou a surgir. O homem que veio do mar apareceu-lhe de repente pisando sargaços e cheirando a sal. Pela primeira vez, ela levantou a cabeça e olhou alguém nos olhos. Percebeu então que ele os tinha vermelhos, como alguns peixes; como os dela. Altivos e decididos, entraram na casa. Delicadamente, o homem deitou-a sobre a mesa da sala, destruiu com dedos em nadadeira a chita rota e a penetrou. Seu grito correu por todo o povoado, do mercado ao cais, da igreja ao morro.
Subitamente, como se ouvissem, como se entendessem, as plantas lentamente passaram a cobrir as paredes da casa. E os escorpiões e baratas caíram ao chão, mortos, secos, virados em areia. E a luz do sol, timidamente, voltou a acariciar a poeira daqueles telhados.
Perderam-se um tempo abraçados em cima da mesa, até que um barulho firme e seco encheu o ar. Mas a mulher, pela primeira vez, não teve medo.
O gigante que afundou um barco entrou na casa, e furioso como nunca antes, quis levantar a mão para a esposa. Mas ele já não parecia tão grande, parecia?
Sentindo em seu peito magro o vento do mar, ela levantou-lhe a cabeça e o olhou fundo, com seus olhos rubros de peixe. O marido, uma vez tão forte e assustador, pela primeira vez, calou-se assustado.
Sem dizer uma palavra, o homem do mar pegou a sua mulher pela mão e saiu da casa lentamente, sem olhar para trás, enquanto as plantas das paredes aproximavam-se de ambos, em uma silenciosa despedida.
Partiram em direção ao mar, e furaram as ondas, para nunca mais voltar.
O marido? Bem, a vizinha conta que o marido, de uma hora para outra começou a encolher. Seria possível? Chorando lágrimas de arrependimento, diminuiu de tamanho a cada fungada, até se tornar um monte de escorpiões e lacraias; até se perder na areia. Dizem que as plantas destruíram a casa, transformando-a em um monte de ruínas onde, algum tempo depois, as crianças, um pouco menos livres, já brincavam sem medo.
E foi assim que tudo aconteceu. Ou quase. A cada vez que essa história é contada, aumenta-se um tanto, diminui-se outro. Mas hoje isso importa muito pouco, pois mesmo os que têm boa memória, não se lembram mais como a vila se foi.
Alguns juram que engolida pelas ondas do mar, sob a atenção impávida de uma mulher com olhos vermelhos, a qual sumiu num susto, serpenteando por entre as ondas seus longos cabelos, negros como sargaço

Saturday, March 11, 2017

Sítio Solidão



“Legião é o meu nome, pois somos muitos”
Marcos 5:9

- Eu não sei nem por onde começar.
Desconcertado, o padre arrastou a cadeira pra perto da mulher. O barulho das pernas secas, de madeira velha, era um como um berro mandando continuar.
- O senhor vai dizer que é por ser a mãe, mas né não... Menina linda demais; viva, o senhor me entende? Era como assim feita de uma luz de dentro, nerá que nem esse povo daqui não, que já nasce cinza, tangendo boi, carregando balde d´água na moleira.
O padre só balançou a cabeça devagar.
- Foi depois que ela ficou moça. Eu tava lá fora, lavando na tina a saia manchada, quando ouvi foi um sopapo oco dentro da casa. Corri e encontrei a menina no chão. Sentei apressada porque ela batia a cabeça no cimento com força. Puxei pro meu colo e chamei por Dona Quinha, a vizinha, mas foi chamando e...
O padre aproximou ainda mais a cadeira e segurou as mãos da mulher. Estavam frias.
- Foi uma chuva, padre, uma chuva de pedra por cima da casa... Caindo com força, vindo sei lá de onde. Aconcheguei a menina no peito e esperei passar. Foi parando e ela se acordando. Areada, sem saber quem era, onde tava. Dei um chá que Dona Quinha ensinou, e parece que se acalmou... A gente jantou como se nem fosse; ela rindo, me contando da escola. Parece que não tinha acontecido era nada. Criança tem dessas benção, né? Fumo dormir cedo. Mas eu acordei com ela gritando. O clarão veio com força, a fumaça. O colchão lambido de fogo. Corri, peguei um baldo d´água lá fora e joguei... O guarda roupa, as boneca. Tudo perdido. Só podia ser coisa da lamparina velha. Só podia.
- Eu gelei do pé à ponta quando vi o lampião inteiro, seu padre. Era possível aquilo? - a mulher levantou a vista pro padre, como quem desafia.
O padre cruzou os braços e deu um goto seco, assustado.
- No outro dia a vizinha veio aqui. Ela... – a mãe titubeou. - ...ela é rezadeira, o senhor me desculpe. Já ajudou muita gente. Trouxe umas planta, um terço bento poderoso demais. E lá fomos nós rezar no pé da cama...
A mulher engasgou-se e colocou pra fora um choro doído, trancado dentro dela como quem guarda assim uma coisa podre, que não pode jogar fora.
- Tava sentada ela, de costas, resmungando umas coisas que ninguém entendeu. Foi a gente entrando e a porta batendo; e as janelas e as telhas, padre; as telhas sambando no teto como sendo assim pé de gente.
O padre tentou dizer alguma coisa, mas a mulher não deixou.
- Dona Quinha tomou a frente com o terço e as planta, mas a menina...Néra mais não. Era todinho um homem, véio, debochado, os olhos brancos, revirados, esculhambando os nomes mais feios do mundo! Falando com aquela voz de bicho umas coisas da vida dela que nem eu sabia! Mas a danada arredou pé não, coitada...- as lágrimas já se misturavam com os palavras, molhando toda a boca. - ...rezou com fé, com força...Mas foi aquele condenado dar com a mão que a zuada piorou, e Dona Quinha, na minha frente, subiu do chão e...bem dizer voou pra parede...-  a mulher suspirou fundo. - ...a cabeça se abriu, padre Arlindo...
O padre levantou-se sem perceber. E por uma peinha de nada, não saiu correndo.
- Em nome de Deus! Em nome de Deus eu preciso que o senhor veja a bichinha.
O padre quase não conseguia mais ficar em pé. Mas arrumou a batina amassada e segurou o terço, inseparável, sentindo o suor descer lento pelas costas.
Rezando um silencioso Credo, abriu lentamente a porta quebrada do quarto.
O ferro do sangue lhe pegou pelo nariz. Vinha da poça quase negra de tão rubra, que banhava o chão, brotando do corpo pálido de Dona Quinha, torta feito uma boneca de pano, largada bem no canto da parede.
“...O que não se faz por uma filha, seu padre.” – sussurrava a mulher na sala.
Com o coração aos sopapos, o padre aproximou-se da cama. Já não conseguia mais rezar quando puxou, num susto, o lençol.
Deitada e rígida, restava a menina, com os olhos embaçados e as mãos em garras, de quem lutou até o fim.
- Senhora! – gritou ele, que já não se lembrava do nome da mulher. – Essa menina está morta!
Não houve resposta.
Só aí entendeu.
A bem da verdade, só aí acreditou.
“padre Arlindo...”
- Eu não lhe disse meu nome...
E voltou pra sala, naquele passo de mangue, como andando em um sonho ruim, a tempo de acompanhar o corpo da mulher se erguendo por cima do chão de cimento cru.
- Cadê a menina? – perguntou com um restinho de coragem.
E aquilo riu. A voz era como uma coisa empoeirada, distante como um rádio velho.
- Tá aqui, padre Arlindo. Tá aqui com nóis.
Do lado de fora, as nuvens negras arrudiaram a casa como se pudessem entrar.
-Quem é você?
Dessa vez gargalhou. A boca se abrindo num buraco sem fim, a cabeça jogada pra trás, balançando os cabelos pretos da senhora, que assopravam uma fumaça de enxofre naquela sala sem vento.
- Uma ruma, padre Arlindo. O primeiro e o derradeiro. Nóis já andava por aqui antes, bem antes. E vamo tá aqui ainda, quando tudo acabar.
Atrás do padre, a porta se fechou.


    

Friday, January 03, 2014




A linha de Sanharó

Para Janine Vaz, que me contou essa história

- Tô com medo.

Quem falou foi a menorzinha; todas as três estavam com medo também, mas quem disse que abriam a boca? Por que danado não tinham dito ao cumpadre da avó que iam era pra Pesqueira? Por que danado não falaram do aperreio quando viram se avizinhando as torres da cidade?

- Se agonie não, Candinha, a gente chega em casa daqui a pouco.

A outra olhou e disse tudo. Elas conheciam a cidade de cima do cavalo, de dentro do jipe do pai, mas ali? Cercadas de breu pra tudo quanto era lado?

 - Jane, eu quero pai. – sussurrou a do meio, aproveitando a abestalhação da menorzinha com um imbuá.

 -  A gente vai encontrar com pai logo, menina, deixe de coisa – Jane dizia mais pra ela mesma do que pras outras duas.

- Tá ficando tarde, menina, táis doida, é? Olha o céu aí.

Jane olhou pra linha e tremeu. Um caminho que nem merece esse nome. A cama de ferro comprida, comprida. Dos lados só água. Se viesse o trem, ela mais Deda pulava, mas e Candinha? Pouquinha, Jesus, maguinha de doer, nove com corpinho de cinco, fazia como?

- Vamo pela estrada. – decidiu Jane.

- Pela estrada pai disse que não era pra ir. Tem gente ruim. – Candinha tinha esquecido do imbuá.

- Tá ficano doida, Jane? – sussurrou Deda.

- Não, tô não, ó pra isso. Uma linha de trem e água, lá embaixo! Tu sabe voar, Deda?

 - Eu não sei voar- chorou Candinha.

Ali, Deda percebeu onde estava. Onde estavam.

 - Passando da linha a gente pode andar em paz.

-  Vai ver pai? – ainda Candinha.

 - Vai ver pai.

 - Então vamos?

 - Pra onde?

- A gente tem que ir pela estrada, tem jeito não.

- Vamos não!

- É só um pouquinho...

- Pai disse pra não ir.

 - Pai também disse que não era pra vir pra Sanharó.

Jane tava acostumada a ser contrariada, mas ali teve jeito não.

Pegou as duas pelos cabelos e arrastou pra longe da linha. Arrastou pra perto da estrada.

Nem demoraram muito não. Chegaram sim na beira da estrada, mas ficaram pensando se era isso que queriam.

Embaixo da luz da lua, a rodagem parecia ainda meio pior que a linha de trem. Deserta, fazia falta a zuada da água pra distrair.

- Pra que lado? – A voz de Candinha escorreu por cima das pedras do asfalto seco.

- Em frente toda vida.

Jane tentava mostrar uma certeza que não existia.

Mas era a irmã mais velha e seguiram então em frente.

Na noite calada, só o chinelo das meninas cantava. Candinha logo se esqueceu da saudade e encontrou um latejado bem direitinho. Num instante tavam as três cantando a mesma música que a avó gostava de cantar com as outras velhinhas em dias santos.

Era muito bom cantar assim, alto, forte, sem ninguém pra rir delas ou pedir pra cantarem baixo, ou calarem a boca, ou...

O cavalo.

...ou...

O homem no cavalo.

As meninas sentiram que era como se fosse uma mão toda de gelo arrochando o coração por baixo dos vestidos finos.

- Mas olhe... – sussurrou o homem.

Meio sem sentir, Jane parou as irmãs com as mãos e ficou bem em frente a elas, sentindo a barriguinha seca de criança de Candinha subir e descer.

- É tarde, meninas.

De novo e de novo. A voz daquele homem era até ruim de contar. Uma coisa feia, grossa, cheia, era como se tivesse sempre rindo de você, ele tava bem ali, na frente, mas era como se a zuada viesse de todo lugar.

- Conheço vocês, meninas.

E riu.

 - Sou amigo de seu pai.

Digo sem medo de errar, se acharam ruim a voz, a risada conseguia ser bem pior. Era mais do que zombeteira, era, ruim.

E as meninas se lembraram do conselho do pai.

- Cândida, Janeide e Janine, as galegas, aqui em Sanharó...

O ó da cidade ficou gritando pela estrada deserta.

- Cheguem meninas, deixo vocês em casa. Subam aqui no cavalo, ele é bem mansinho.

Pela primeira vez Jane olhou o estranho bem nos olhos. E sentiu as canelas magrinhas baterem umas nas outras. Eram vermelhos e quentes, e da boca fina a língua se batia como louca.

Mas mesmo dali, de longe que estavam, pensou se não seria melhor que fossem mesmo, que subissem no cavalo e fossem pra casa.

Era bem fácil, só esticar os dedos e logo estariam dormindo na cama quentinha, com o couro doendo sim, mas em casa.

Só esticar os dedos.

- Jane!

Era a menorzinha.

 - Vai não, Jane!

- Vem sim, é só você esticar essa mãozinha...

Aí que a música da avó veio na cabeça da menor e Deda continuou. Era como se tivessem despejado alguma coisa bem molhada e quente no ouvido dele. Gritou, urrou como um bicho, tentou cobrir as orelhas com as mãos.

Sacudia a cabeça...

Cabeça comprida, comprida...

Com as mãos em garras, feito bicho.

E na cabeça.

Chifres.

Deda lembrava sim da música da avó e ajudou Candinha.

Até que o homem e o cavalo pipocaram naquela estrada deserta pintando no chão da encruzilhada uma mancha preta e fedorenta, como aquelas que os meninos faziam em dias de São João.

E amanheceu.

A estrada era bem diferente pela manhã cedinho, e quase se ouvia o piado dos bem- te- vis longe, longe.

As meninas ainda andaram muito pra chegar em casa, mas nunca ficaram tão satisfeitas em encontrar as torres das lápides naquele cemitério tão pequeno.

A cidade já esperava angustiada. O pai, vermelho e de olhos arregalados, correu como nunca num ajoelhado abraço.

- Painho, me desculpa, painho!

Mudo de felicidade, o pai pensava demais, mas a emoção lhe matava a voz.

- Entre, menina, entre, descanse, a gente conversa depois...

Aliviada, Jane estendeu a mão para as irmãs.

 - Que danado é isso? – assustou-se a mãe.

- As meninas.

Com a mão na boca para ajudar a engolir o choro, a mãe teve coragem afinal.

- Pare já com essa história, Janine! Tu sabe! Tu é minha filha! Só uma. A única das três que vingou.


Tuesday, December 29, 2009

A sombra das lâmpadas



Até hoje eu acho graça. Quando a noite tá assim calada, sem pio de rasga-mortalha ou estalo do vento no canavial, eu acho graça. Prefiro.
De longe a pessoa já via que era de fora, nem tanto pela roupa, mas pelo andar. Sabe aquele jeito assim largado, como se a pessoa não tivesse o que fazer? E não tinha mesmo não.
Vinha distraído, chutando barro, resto de flor, e parou aqui, bem na entradinha do portão.
Olhou, e olhou. Com as mãos no bolso ficou parado, como quem pensa.
Até que bateu palmas, de um jeito cuidadoso, de quem tem medo de acordar alguém.
E isso era o engraçado. Acordar quem?
Fui até lá sem paciência e ele começou com uma conversa mole, uma fala cheia de pra-quê-isso, dizendo do tempo, da cidade das pessoas.
Até que perguntou pela luz.
Se eu tinha dúvida de que era de fora tinha resolvido era ali. Não tem quem seja das cercanias que não saiba. A gente não fala no assunto não, fala de jeito nenhum, mas sabe.
Tava tão só naquele dia que quase contei, acredita? Com detalhes, o que aconteceu. A terra mexendo, as cruzes caindo, os dedos rasgando as mortalhas, o cheiro, meu Deus, o cheiro. A morte. A morte vivinha.
Mas não; inventei algum projeto do governo e o homem foi embora rápido, sem interesse. É só falar em política que o povo foge.
De fora, ele.
Nem perguntei, mas sabia, só gente se fora não sabe a história, só gente de fora acha bonito um cemitério tão iluminado, mais brilhante que a cidade.
Só gente de fora.
Que não sabe.

Saturday, July 04, 2009

DO AMOR

Sunday, April 12, 2009

O lago



Quando a agulha do angustiado bordado lhe entrou fundo no indicador, a mulher sobressaltou-se, levado o dedo à boca.
Quase onze. Nada do menino.
Aflita, ficou entre preparar um chá de camomila e tirar o pó da cristaleira antiga.
Permaneceu sentada, afinal.
Lá fora, a noite então calma, lhe parecia agora assustadora, com sua tranqüilidade de morte.
Não morte. Nada de morte, pensou, enquanto passava o rosário entre os dedos.
Alma de mãe, trazia sempre junto a si o pequeno terço, contando-lhe as contas, também aflitas, já untadas com o óleo do desespero.
Quase onze e cinco.
O relógio de pulso cravava-lhe os dentes desafiadores, como antecipando uma desgraça.
Ora, mãe que era, vivia de desgraças antecipadas, presentes em um telefone desligado, em um adeus não respondido. Em um atraso.
Um atraso de horas?
O menino nunca fora lá muito pontual, principalmente em período de férias, quando o lago ficava mais perto e os céus mais cheios de pássaros.
Mas hoje não. Não hoje. O pêndulo antigo badalou tantas vezes, chamando o nome dele. Em resposta, apenas o luar lá fora, que mesmo imenso, não teve forças pra rasgar aquela escuridão sem fim.
Sozinha que era, contou às xícaras da cristaleira suja um tantinho do seu desespero.
Pensou no menino, na barriga, no berço, nos cadarços e nos ponteiros. Pensou no banho e na escola. Quem teve a idéia de ensinar a nadar, meu Cristo redentor?
Quem teve?
As lágrimas já desciam espessas e quentes. Em resposta, o eco dos soluços dentro da casa vazia.
Contar a quem, se as xícaras e a cadeira e o quadro não podiam fazer nada?
Só o relógio chamava, mas nada. Quantas vezes também gritou, aflita, no lado de fora, chamando, chamando, chamando...
Lá fora, parado.
Paradinho, meu nosso senhor.
O menino. Molhado.
Bem de frente a casa.
O medo deu lugar ao alívio e à raiva.
- Entra, condenado! Entre em casa agora! – ralhava.
Cabisbaixo, o menino entrou. Pingando água do lago.
Só naquele dia a mãe não se importou dele molhar o tapete limpo.
Agradeceu ao terço enquanto lhe enxugava a cabeça fria, fria.
Correu à cristaleira e pegou a mais antiga xícara pra um chá bem quente. Uns limões e um alho amassado ele ficava bem em dois tempos.
***
Mesmo de longe, onde morava, a lua viu, preso nas plantas do lago, um corpo azulado farfalhando a água negra.
E percebeu, de dentro da casa, o menino pingar o tapete com pequenos pés, também azuis.
Que não encostavam no chão.

Thursday, February 26, 2009

Enxurrada





Mãe que mandou eu acender as vela.
Acender as vela, e rezar, pedindo proteção.
“E eu sei lá rezar, mãe?”
“Pede, minha filha, pede que hoje eu preciso sair.”
E eu pedi, lá do meu jeito mesmo, fechando os olhos, como nas historinha que eu vi quando dá chuva bem grande e traz até revistinha na lama.
Mas mudou foi nada.
Pensei em chamar pela minha mãe, mas a palavra morreu na boca. Ela tava agoniada demais, andando pra lá e pra cá com a roupa do trabalho. Ia sair.
“Nada de sua prima. Eu preciso ir, minha filha. Acenda a vela”
“Tá acesa, mãe.”
O barulho da água descendo o morro quase não deixava a gente conversar.
“Ai, meu Deus, é hoje que esse morro desaba.” - gritaram de fora.
“O morro desaba, mãe?” - perguntei, assustada.
“Desaba nada, besteira desse povo que não tem o que fazer.”
Mãe até tentou, mas tava na cara que não botava muita fé na madeira e nos pregos.
O céu em cima também ouviu, e respondeu do jeito dele.
“Vailha-me, Deus! Não posso levar você não, mas tu já é grande, pode ficar um tempo só.
Tranque tudo, viu?”
Mais trovão.
Num susto, mãe apagou as velas. As brancas. Foi lá dentro batendo os saltos, brancos também, e trazendo outras.
Me carregou com força pelo braço, ajoelhando.
E acendeu. Pretas e vermelhas.
“Pede, minha filha.”
“Já rezei, mãe.”
“Não. Chama pelo nome”
E me ensinou.
“Não abre a porta pra ninguém. Ninguém. Tô chegando pela manhã.”
E saiu.
Não consegui dormir. Não consegui fazer foi nada. Comida não tinha, nem água pra beber.
Deitei. Cantei baixinho. Mas a chuva não parava. Tapei os ouvidos com a mão pra não escutar o
aperreio lá de fora. Gente correndo, gritando, barulho d´água braba. Água assassina.
Até que a chuva veio enxurrada. Batendo. Socando. Esmurrando.
Na porta.
Fiquei calada, quietinha como mãe mandou, pra pensarem que não tinha ninguém.
“Tem gente aí?”
Calada. Não vou abrir a porta pra ninguém.
“Se tiver saia agora, tamo desocupando o morro, a água vai levar tudo.”
Pra ninguém.
Acendi a vela. Fiz do jeitinho que mãe mandou. Primeiro a preta, depois a vermelha. E a marrom.
Depois chamei pelo nome.
“Na minha casa ninguém entra.”
Falaram alto, com a minha boca sim, mas aquilo nunca que era a minha voz.
O homem lá fora também se assustou com a força que escancarou a porta.
Mas ele entrou não. Deu nem tempo.
O corpo foi longe, longe, jogado aos pedaços no riacho de lama que virou o morro.
O povo tava tão aperreado que nem bem notou. Eu fiquei rente à soleira, sentindo a água da chuva passando ao meu redor, assustada que tava, sem pingar, sem encostar. Nem sei por quanto tempo.
Mal bateu a manhã, mãe chegou.
Suja de lama, molhada, mas despreocupada. Sabia que eu tava bem.
Pergunta se eu já tomei café e vai direto pra cozinha.
Com o vestido molhado, manchado de lama, pingando areia pela casa.
E sangue.