Tuesday, December 29, 2009

A sombra das lâmpadas



Até hoje eu acho graça. Quando a noite tá assim calada, sem pio de rasga-mortalha ou estalo do vento no canavial, eu acho graça. Prefiro.
De longe a pessoa já via que era de fora, nem tanto pela roupa, mas pelo andar. Sabe aquele jeito assim largado, como se a pessoa não tivesse o que fazer? E não tinha mesmo não.
Vinha distraído, chutando barro, resto de flor, e parou aqui, bem na entradinha do portão.
Olhou, e olhou. Com as mãos no bolso ficou parado, como quem pensa.
Até que bateu palmas, de um jeito cuidadoso, de quem tem medo de acordar alguém.
E isso era o engraçado. Acordar quem?
Fui até lá sem paciência e ele começou com uma conversa mole, uma fala cheia de pra-quê-isso, dizendo do tempo, da cidade das pessoas.
Até que perguntou pela luz.
Se eu tinha dúvida de que era de fora tinha resolvido era ali. Não tem quem seja das cercanias que não saiba. A gente não fala no assunto não, fala de jeito nenhum, mas sabe.
Tava tão só naquele dia que quase contei, acredita? Com detalhes, o que aconteceu. A terra mexendo, as cruzes caindo, os dedos rasgando as mortalhas, o cheiro, meu Deus, o cheiro. A morte. A morte vivinha.
Mas não; inventei algum projeto do governo e o homem foi embora rápido, sem interesse. É só falar em política que o povo foge.
De fora, ele.
Nem perguntei, mas sabia, só gente se fora não sabe a história, só gente de fora acha bonito um cemitério tão iluminado, mais brilhante que a cidade.
Só gente de fora.
Que não sabe.

Saturday, July 04, 2009

DO AMOR

Sunday, April 12, 2009

O lago



Quando a agulha do angustiado bordado lhe entrou fundo no indicador, a mulher sobressaltou-se, levado o dedo à boca.
Quase onze. Nada do menino.
Aflita, ficou entre preparar um chá de camomila e tirar o pó da cristaleira antiga.
Permaneceu sentada, afinal.
Lá fora, a noite então calma, lhe parecia agora assustadora, com sua tranqüilidade de morte.
Não morte. Nada de morte, pensou, enquanto passava o rosário entre os dedos.
Alma de mãe, trazia sempre junto a si o pequeno terço, contando-lhe as contas, também aflitas, já untadas com o óleo do desespero.
Quase onze e cinco.
O relógio de pulso cravava-lhe os dentes desafiadores, como antecipando uma desgraça.
Ora, mãe que era, vivia de desgraças antecipadas, presentes em um telefone desligado, em um adeus não respondido. Em um atraso.
Um atraso de horas?
O menino nunca fora lá muito pontual, principalmente em período de férias, quando o lago ficava mais perto e os céus mais cheios de pássaros.
Mas hoje não. Não hoje. O pêndulo antigo badalou tantas vezes, chamando o nome dele. Em resposta, apenas o luar lá fora, que mesmo imenso, não teve forças pra rasgar aquela escuridão sem fim.
Sozinha que era, contou às xícaras da cristaleira suja um tantinho do seu desespero.
Pensou no menino, na barriga, no berço, nos cadarços e nos ponteiros. Pensou no banho e na escola. Quem teve a idéia de ensinar a nadar, meu Cristo redentor?
Quem teve?
As lágrimas já desciam espessas e quentes. Em resposta, o eco dos soluços dentro da casa vazia.
Contar a quem, se as xícaras e a cadeira e o quadro não podiam fazer nada?
Só o relógio chamava, mas nada. Quantas vezes também gritou, aflita, no lado de fora, chamando, chamando, chamando...
Lá fora, parado.
Paradinho, meu nosso senhor.
O menino. Molhado.
Bem de frente a casa.
O medo deu lugar ao alívio e à raiva.
- Entra, condenado! Entre em casa agora! – ralhava.
Cabisbaixo, o menino entrou. Pingando água do lago.
Só naquele dia a mãe não se importou dele molhar o tapete limpo.
Agradeceu ao terço enquanto lhe enxugava a cabeça fria, fria.
Correu à cristaleira e pegou a mais antiga xícara pra um chá bem quente. Uns limões e um alho amassado ele ficava bem em dois tempos.
***
Mesmo de longe, onde morava, a lua viu, preso nas plantas do lago, um corpo azulado farfalhando a água negra.
E percebeu, de dentro da casa, o menino pingar o tapete com pequenos pés, também azuis.
Que não encostavam no chão.

Thursday, February 26, 2009

Enxurrada





Mãe que mandou eu acender as vela.
Acender as vela, e rezar, pedindo proteção.
“E eu sei lá rezar, mãe?”
“Pede, minha filha, pede que hoje eu preciso sair.”
E eu pedi, lá do meu jeito mesmo, fechando os olhos, como nas historinha que eu vi quando dá chuva bem grande e traz até revistinha na lama.
Mas mudou foi nada.
Pensei em chamar pela minha mãe, mas a palavra morreu na boca. Ela tava agoniada demais, andando pra lá e pra cá com a roupa do trabalho. Ia sair.
“Nada de sua prima. Eu preciso ir, minha filha. Acenda a vela”
“Tá acesa, mãe.”
O barulho da água descendo o morro quase não deixava a gente conversar.
“Ai, meu Deus, é hoje que esse morro desaba.” - gritaram de fora.
“O morro desaba, mãe?” - perguntei, assustada.
“Desaba nada, besteira desse povo que não tem o que fazer.”
Mãe até tentou, mas tava na cara que não botava muita fé na madeira e nos pregos.
O céu em cima também ouviu, e respondeu do jeito dele.
“Vailha-me, Deus! Não posso levar você não, mas tu já é grande, pode ficar um tempo só.
Tranque tudo, viu?”
Mais trovão.
Num susto, mãe apagou as velas. As brancas. Foi lá dentro batendo os saltos, brancos também, e trazendo outras.
Me carregou com força pelo braço, ajoelhando.
E acendeu. Pretas e vermelhas.
“Pede, minha filha.”
“Já rezei, mãe.”
“Não. Chama pelo nome”
E me ensinou.
“Não abre a porta pra ninguém. Ninguém. Tô chegando pela manhã.”
E saiu.
Não consegui dormir. Não consegui fazer foi nada. Comida não tinha, nem água pra beber.
Deitei. Cantei baixinho. Mas a chuva não parava. Tapei os ouvidos com a mão pra não escutar o
aperreio lá de fora. Gente correndo, gritando, barulho d´água braba. Água assassina.
Até que a chuva veio enxurrada. Batendo. Socando. Esmurrando.
Na porta.
Fiquei calada, quietinha como mãe mandou, pra pensarem que não tinha ninguém.
“Tem gente aí?”
Calada. Não vou abrir a porta pra ninguém.
“Se tiver saia agora, tamo desocupando o morro, a água vai levar tudo.”
Pra ninguém.
Acendi a vela. Fiz do jeitinho que mãe mandou. Primeiro a preta, depois a vermelha. E a marrom.
Depois chamei pelo nome.
“Na minha casa ninguém entra.”
Falaram alto, com a minha boca sim, mas aquilo nunca que era a minha voz.
O homem lá fora também se assustou com a força que escancarou a porta.
Mas ele entrou não. Deu nem tempo.
O corpo foi longe, longe, jogado aos pedaços no riacho de lama que virou o morro.
O povo tava tão aperreado que nem bem notou. Eu fiquei rente à soleira, sentindo a água da chuva passando ao meu redor, assustada que tava, sem pingar, sem encostar. Nem sei por quanto tempo.
Mal bateu a manhã, mãe chegou.
Suja de lama, molhada, mas despreocupada. Sabia que eu tava bem.
Pergunta se eu já tomei café e vai direto pra cozinha.
Com o vestido molhado, manchado de lama, pingando areia pela casa.
E sangue.








Saturday, November 22, 2008

À luz do lampeão

E tendo dito isso, clamou em voz alta, lázaro, vem pra fora
João 11:43 :


“É preciso ter fé.” – tremeluzia-lhe nas mãos a faca, rebatendo a luz fraca do lampeão.
O homem, com o punhal sobre os joelhos, girava-o, como a pedir alguma coragem.
Acostumado a matar pássaros e bois, nunca soubera como é a morte de alguém.
De dentro do quarto, gemia alto o menino, pedindo uma decisão.
Um golpe só. Firme e certeiro? Vários, repetidos e superficiais?
Que fosse um só. E que desse certo, pelo amor de Deus, que desse certo.
Daria, foi o que lhe prometeu o homem misterioso que lhe apareceu à porta. Barbado e de olhar
bondoso, respondeu-lhe o que não tinha perguntado.
O filho morreria naquela noite. Depois de morto não teria jeito, ele não era Deus, afinal.
Mas antes sim. Antes o punhal, lhe rasgando o peito como a quebrar a casca de um ovo, lhe trazendo de volta o menino saudável e arteiro.
O menino no quarto, afinal.
O punhal. O golpe.
Os olhos do menino, incompreensíveis.
O sangue, o sangue, o sangue.
Manchava as mãos, corria, ferruginoso, por cima da colcha bordada.
O sangue, meu Deus.
As mãos do menino puxando o punhal, Jesus do céu.
Arrancando.
O punhal tilintando no chão, manchado. O punhal e o chão, manchados.
Os olhos do filho, Cristo. Do meu filho.
“É preciso ter fé.” – esperava o pai, lavado em sangue inocente, sentando no outro cômodo.
Esperando o filho.
É preciso. Mas por quanto tempo?


Saturday, September 06, 2008

Linha de trem*



Diz que começou com o filho da dona da barraca de verdura, bem aqui em
frente. Foi pegar um carrinho, sei lá, e não ouviu o apito do bloqueio. A gente nem
sabia onde começava uma coisa e terminava outra. Coisa feia de se ver, mulher.
O povo jurava que o menino tava lá. Na casa. Tomando sopa e café, a comida toda
se esparramando pela garganta, Deus me perdoe.
Dia desses tomei coragem. Falei com ela. O menino só vi de costas, sentado na
mesa da cozinha. As linhas pretas e grossas mal costuradas juntando braços,
juntando pernas. Mas aceitei, no fim. Saudade é pior.

Daqui da janela dá pra ver que vem alguém. No fim da rua. Cambaleando que nem
criança. Reconheço o terno sim; todo furado de bala.
Vem, amor. Volta pra casa.

*A mais nova empreitada do terror. Terrorzine, o mais terríveil periódico de todos os tempos.
Por sua própria conta e risco.

Friday, August 01, 2008

NOVO LIVRO!


Caríssimos e fidelíssimos leitores!


Tenho o orgulho de convidá-los para a mais recente empreeitada da editora Andross!


Caminhos do medo, um livro de fazer gelar até coveiro experiente!


Lançamento na belíssima Casa das Rosas organizada pela mesma equipe do Noctâmbulos, mais detalhes acima, no convite.


Quem estiver em Sampa, dá uma passada por lá, que vale a pena. E adquiram o livro na minha cota! Hehehehe.


Quem não estiver, aguarde que até o fim do mês teremos um lançamento em Natal!


Para adquirir de outros locais do Brasil, por favor entre em contato que eu providencio: marciobenjamin@gmail.com


Grande abraço! E compareçam, vai ser assustador!


Márcio Benjamin