Monday, July 24, 2006

À beira da estrada


As lâmpadas que restavam na velha placa de néon ainda piscavam do lado de fora do bar, tentando resistir bravamente. Dentro, eu e ele; olhos vez em quando nos olhos, vez em quando nas cartas, buscávamos ases.
Ao redor da mesa, as pessoas nem respiravam. Todas, sem exceção: caminhoneiros e putas, assaltantes, e o barrigudo proprietário, esperavam o fim daquele jogo. Porque ninguém ganhava de Luizão. Até então.
Eu tinha chegado lá meio por acaso, perdido em mais uma viagem sem sentido pelo interior do Brasil. Uma daquelas viagens de busca interior, ridiculamente hippie em pleno século vinte e um.
Boléias de caminhão, andanças, solavancos empoeirados de estradas esburacadas, paisagens maravilhosamente diversas que duravam apenas alguns instantes, me anteviam um promissor futuro de descobertas, segredos bandeirantes. Até que a porra de um assalto, que tinha começado numa carona, me deixou meio morto meio vivo às portas daquela placa de néon. Era cedinho já quando eu acordei, no chão, virado pra cima aos pés de um velho barrigudo, fedorento, e de bom coração, que me colocou pra dentro e me deu de comer.
Sem nada meu, fiquei trabalhando por lá mesmo, fazendo de tudo um pouco, até que conseguisse dinheiro pra voltar. Nunca pediria nada a minha mãe, ela foi a primeira a dizer que essa viagem não era pra mim, que eu ia voltar pra casa em uma semana com o rabinho entre as pernas. Não sei que dia é hoje, mãe, mas com certeza já faz mais de uma semana que saí de casa.
Luizão, de olhos fixos nos meus, baixa suas cartas ensebadas. Alguns quatros, perdidos entre setes e seis. Ouros e paus se misturam, ao redor de um inútil dez. Ouço a multidão suspirar em ondas, num mar de perplexidade enquanto acaricio, sem perceber, a família real oculta em minhas mãos, súditas de um solitário, mas eficiente, ás. É. Aquele era o dia de Luizão.
Olhos nos olhos, deito minhas cartas sobre a mesa.
E sinto o chão escapar debaixo dos meus pés.
Mas como?
Das minhas mãos ao pano verde, a família real torna-se um seco número um, alguns dois e um três. Plebeus, a zombar da minha derrota.
Como?
Sério, mas com um meio-sorriso a surgir no canto da boca, Luizão me estende a mão. Uma mão encardida, com pêlos escuros e grandes unhas amareladas. Uma mão que eu aperto, selando nosso acordo.
É. Eu perdi.
Levanto-me, e as pessoas ao redor da mesa afastam-se, num harmônico gesto.
Luizão se despede do dono do bar com um discreto aceno de cabeça, segurando o chapéu, e cruza a porta, em direção ao seu caminhão.Eu o sigo.
As pessoas me avisaram que ele sempre ganha, mas eu, incrédulo, decidi jogar. Pensamos que nunca acontecerá conosco, não é mesmo?
A grande porta escura do caminhão se abre e eu subo. Da janela, vejo pela última vez os olhares resignados das pessoas do bar. Amontoadas embaixo da placa de néon, elas esperam sua vez de jogar. Um assustado, mas obediente, rebanho de almas.
“Você sabia que eu perderia.” – murmurei, derrotado.
“Mas ainda assim você quis jogar.” – respondeu ele, firmando os pés nos pedais.
“E por que me fez pensar que ganharia?”.
Dessa vez ele não respondeu. Mas eu sei. Talvez a esperança seja nosso prêmio de consolação, um ilusório coringa recebido por debaixo da mesa, no momento da cartada final.
“Ninguém ganha de Luizão.” – repito pra mim mesmo, enquanto o caminhão negro segue, devorando a estrada.

14 Comments:

Anonymous Márcia(clarinha) said...

Se tivesse ganho sua mãe o receberia empacotado, é...não chegou a hora, bora que tem mais estrada pela frente!
Almas boas perâmbulam por aí.
beijossssssss

1:28 PM  
Blogger Cristiano Contreiras said...

na vida há perdas e ganhos...acontece!
boa semana!

12:57 AM  
Anonymous Ro said...

Há um tempinho sem vir te ler, que bom voltar e encontrar esses encantamentos todos. Beijo

6:42 AM  
Blogger MilaF said...

De arrepiar.

10:15 AM  
Blogger MilaF said...

Não consegui ver teu MSN, moço. Me adiciona se quiser: nanquim@hotmail.com.

Insisto no Círculo de Crônicas. Por quê? Porque eles fazem uma seleção muito legal de autores - não publicam qualquer besteira, embora recebam muita coisa - e você tem exatamente o perfil de autor que o site curte publicar. E os contos lá não precisam ser inéditos. Podem ser os do seu blog ou de outro lugar onde você já tenha publicado. Eu mesma tenho por lá muitos textos. Faça uma visita, conheça o local e depois veja se lhe interessa: www.circulodecronicas.com

Obrigada por continuar acompanhando "O sabor das primeiras". Espero que curta a conclusão.

Beijão.

10:27 AM  
Blogger Chica said...

ai que mardade! judiou do bichinho, com a esperança não se brinca. essa doeu lá dentro.

1:36 PM  
Anonymous Ordisi said...

Coringa em Poker só em Alfa Centauri, mas o texto transpira tensão de jogo. Muito bom, Márcio.

ABrs.

1:51 PM  
Blogger Thiago Forrest Gump said...

This comment has been removed by a blog administrator.

5:33 PM  
Blogger Thiago Forrest Gump said...

Faz parte da vida o jogo, assim como faz parte do jogo, viver.

O trocadilho é mau, mas apetecia-me!



Abraços

5:34 PM  
Anonymous Ana Carla said...

Huummm... acho que tem mais a ver com o prazer sádico de quem sabe que vai ganhar... Seus textos sempre me arrepiam. No bom sentido, é claro. Rs...

6:07 AM  
Anonymous Anonymous said...

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1:05 PM  
Anonymous Anonymous said...

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