Monday, July 10, 2006

Maria e João


Éramos amigos já fazia algum tempo. De comum, Maria só tinha mesmo o nome. Sempre foi uma menina diferente, a minha figurinha premiada. Subia em árvore, fazia pipa, jogava biloca como ninguém, acertando com maestria os mais difíceis buracos.
Andávamos sempre juntos; unidos, como pedra e baladeira: “menina e menino, quem já viu uma coisa dessas?” - resmungavam as pessoas daquela época. Mas eu não me importava, porque as horas ao lado de Maria pareciam escorrer, como areia, por entre meus dedos. Só lembrávamos de voltar pra casa quando soavam os berros da minha mãe. Da minha. Maria parecia não precisar de mãe ou de berros. Quando se aproximava a hora de jantar, ficava parada por alguns instantes, ouvindo um sussurro inaudível, como um animal farejando o perigo no ar, e acabava por correr pra dentro de casa numa pressa desabalada, quase sem se despedir de mim.
Um dia, sem mais nem menos, passei a acompanhá-la até em casa usando como desculpa o cínico argumento de que uma menina não deveria andar na rua sozinha àquela hora. Uma criança comum, talvez. Mas não Maria. Não uma menina que tinha fogo no cabelo e asas nas solas dos pés.
No começo, Maria ainda tentou me dissuadir, enxotando-me com simpatia, como quem dispensa um cachorro de rua. Mas eu permaneci firme. E acabei por merecer entrar em sua casa.
O que eu vi além daquelas portas foi mais do que eu esperava: um lugar demasiadamente bonito, bem arrumado, uma verdadeira casa à moda antiga; uma casa de cinema, pensei, esticando ao máximo o alcance da minha referência infantil.
Até que, numa certa feita, acabei demorando mais do que devia e precisei jantar por lá mesmo. A surpresa preencheu-me olhos e boca, tudo era simplesmente o oposto do que tínhamos na mesa da minha casa; na casa de Maria jantávamos doces, bolos, sorvetes e mesmo os tão temidos refrigerantes, enquanto assistíamos a desenhos que só pareciam existir na televisão daquela sala.
Era tudo muito simples: Maria perguntava o que eu queria e então sumia cozinha adentro, pra voltar em segundos, trazendo as mais variadas guloseimas desejadas por mim. Sempre com a ordem de que eu me sentasse, a cozinha andava muito desarrumada.
Pra tristeza da minha mãe e de suas sopas, passei a jantar naquela casa todas as segundas, terças e quintas. As minhas calças já encolhiam a olhos vistos, na mesma proporção que minha silhueta se arredondava.
Quando somos crianças, o melhor a se fazer é permitir, sempre. A proibição despeja sobre o que quer que seja uma vistosa calda de chocolate e mistério, tornando interessante até mesmo um prato de salada, verde como grama.
Maria nunca deveria ter me impedido de entrar na cozinha.
Desde aquele dia, as delícias que me eram oferecidas nos seus jantares, até então especiais, foram perdendo muito do seu sabor assim que eu pensava no que poderia existir fora dos limites daquela mesa tão bem arrumada; daquela sala à moda antiga.
Um dia, afinal, tomei coragem e disse que gostaria de mais um gole do refrigerante, levantando-me para buscar. Claro que Maria, mais uma vez, deu a desculpa da cozinha desarrumada e tentou barrar-me com a palma de sua pequena mão.
Mas você nunca, nunca deve proibir uma criança.
Eu ainda podia sorrir quando num drible digno de palmas, aprendido nas peladas do campinho, contornei-a e invadi o tão desejado aposento.
As coisas que vi esgueirando-se daquelas paredes nunca mais me deixariam em paz.

18 Comments:

Blogger Marguinha said...

O.O O que tinhaaaaaaaaa??? =| Angústia. pffffffff.
=************

8:28 AM  
Blogger Chica said...

fizeste um trato com o capeta. só pode... não vou deixar joaquim perto de vc um minuto se quer...

8:43 AM  
Anonymous Thiago de Góes said...

Baixou a música de Roberta Miranda? a que conclusões chegaste?

11:17 AM  
Anonymous Ordisi said...

Eu já tinha ouvido comentários de que as cozinhas de Alfa Centauri são mesmo muito estranhas.

:)

Excelente texto, Márcio.

Abraço.

2:01 PM  
Anonymous Márcia(clarinha) said...

O que de tão sinistro existia na cozinha de Maria?
beijosssssssssss

7:33 PM  
Anonymous Lilly Rowan said...

Sabe, sempre achei que minha inveja era "benigna", que era sempre no bom sentido. Mas acho que vou parar de te ler, tou ficando verde...

11:19 AM  
Blogger Santos Passos said...

Beleza, Márcio. Beleza.

6:17 PM  
Anonymous Deco said...

Tava ouvindo uma música do Cirque du Soleil enquanto lia esse conto! Rapaz, casou direitinho! Muito massa, Márcio! Bem twilight zone

=)

10:00 PM  
Anonymous Ordisi said...

Bom ter um velho amigo aqui na festa. Daqui a pouco vai ser a vez dos contadores de "causus" e você poderá afinal explicar para todos nós os detalhes das culinária extraterrestre. Não se acanhe, tá?

:)

Abração.

11:55 AM  
Anonymous Ana Carla said...

Huumm... saboreando os seus textos, também fiquei curiosa por conhecer a cozinha. Mas acho melhor não... Ainda não tenho essa intimidade, afinal, estou na primeira visita!

1:29 PM  
Anonymous anuska said...

que danado tinha nessa cozinha? ... será que lá tinha os segredos das jujubas? provavelmente não...

5:16 PM  
Anonymous Moacir Caetano said...

e o que escorre das paredes da tua cozinha, hein?
Por enquanto, vou apenas saboreando as guloseimas...

3:46 AM  
Blogger b. said...

aconteceu o mesmo comigo no banheiro la de casa.
usei um lanca chamas.
recomendo.

1:43 PM  
Blogger MilaF said...

Já vi que você é do tipo de escritor que gosta de arrepiar com sutileza. Nada de horror-meleca, nada de sangue espirrando à farta, nada de monstros saindo pelo ladrão, nada de rótulos, aliás; é algo sem pretensão, sem academicismo, parece, sem vontade do autor de ser outro autor. Só você com seus pesadelos.

É interessante que você não tenha descrito o que o narrador-personagem viu nesse jantar fatídico. Dá, sim, a sensação de que falta algo. Mas também dá a divertida impressão de que não é necessário explicar. Cada leitor saberá dentro de si o que poderia apavorar um menino tão prático e certo da beleza de sua amizade.

Estou achando que sua Maria estava mais para Pandora.

"Não uma menina que tinha fogo no cabelo e asas nas solas dos pés." Uma das várias belas sacadas que vemos por aqui.

"Pois você sumiu no mundo sem me avisar
E agora eu era um louco a perguntar
O que é que a vida vai fazer de mim"

De vez em quando o Chico Buarque sabe das coisas.

2:12 PM  
Anonymous Anonymous said...

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