Sete vidas*

“Miau” – disse o gato, parado na porta do quarto.
A enfermeira, até então preocupada em saber quem seria o novo namorado de Grazi, informação que seria transmitida no próximo bloco, do programa vespertino de fofocas, perde a respiração.
“Miau” – parece dizer o gato ao adentrar de leve o quarto
com a elegância típica da sua espécie.
E visitar uma por uma, as camas, em uma roleta russa quase assustadora demais para ser real.
Seu Antônio, Cardiopata?
Dona Iara, Alzheimer?
Pedrinho, Enfisema?
Sim.
Pedrinho, enfisema, decide o gato prostrando-se firme aos seus pés, como uma estátua.
Sorrindo por entre o respirador, o velho esquece por alguns instantes a máquina e balança-lhe os dedos como minhocas, procurando comunicar-se numa peculiar língua de gato.
São quase quatro horas. Pedrinho ainda não sabe, mas até as seis, estará morto.
Do outro lado da sala a enfermeira enxota o pequeno carrasco, como se pudesse adiar o inadiável. Pedrinho se irrita, não tem lá muitas distrações no hospital e não entende por que lhe tiraram o gato.
Transmite doenças, é o que responde a enfermeira.
Eu já sou doente, vou morrer logo, diz, amuado. E se deita cobrindo os olhos, num claro sinal de silêncio irritado.
O senhor não sabe o quão logo, pensa a enfermeira antes de acolchoar um macio travesseiro atrás da cabeça do moribundo, confortando as suas últimas duas horas de vida.
Perturbada, desliga a apresentadora no momento em que ela daria a tão esperada notícia. Misteriosamente, Grazi já não é mais tão importante assim.
Em direção ao corredor pára à porta lançando um olhar mais curioso que terno aos que descansam naquelas camas.
Mas como pode? Como ele pode saber?
Motivada por uma insuspeita indignação, decide busca pistas do animal, naquela mania tão humana de encontrar bodes expiratórios para o irremediável.
Em sua vigília cega às alas hospitalares, arregala os olhos ao perceber um felpudo rabo branco serpenteando para dentro do quarto das crianças.
Corre ainda a tempo de ver a menina cancerosa acariciando aquelas costas arqueadas.
Gatinho, diz a menina.
Tic tac, diz o gato.
Cento e vinte minutos. E contando.
Cega de fúria, a enfermeira lança ao animal a primeira coisa que vê. Um pacote de soro.
Nada surpreso, ele esquiva-se e parte para fora do quarto. A enfermeira o persegue.
Não há ninguém no corredor, ninguém que possa acompanhar a cena felliniana de uma enfermeira perseguindo um gato branco em um hospital, quase no fim da tarde.
Finalmente, cerca o animal. E deixa escapar um sorriso triunfante no canto da boca. Conseguira, afinal, o que muitos buscavam por anos, encurralar a própria morte.
E avança, com a certeza da vitória escorrendo dos dedos.
Mas a faxineira, velha e desleixada, esqueceu-se mais uma vez de colocar o aviso de “cuidado, chão molhado”, e a enfermeira sentiu, pela primeira e última vez, a deliciosa sensação de patinar.
E precipitou-se por cima das fitas adesivas que protegiam uma janela sem vidro.
Que ficava a mais de nove andares do chão.
Já sentindo o calor do asfalto no rosto, e o ferruginoso sabor de sangue na boca, ainda pôde ver no andar da queda um vulto branco que a mirava.
Um vulto branco que, àquelas cinco e meia da tarde parecida dizer:
Tic Tac.
*Texto criado à partir desta notícia: