Adormeça

Ela estava deitada na cama com o cobertor na altura do peito. Apertava-o com tanta força que os nós dos dedos estavam quase brancos. Era muito tarde. O silêncio era total. Só se ouvia o vento esfregando os galhos da árvore grande do quintal em sua janela . Depois, nem isso. A falta de ruído a assustava ainda mais. Trazia-lhe insegurança. Era como uma conspiração. Ouviu um murmúrio embaixo da cama. Puxou mais o cobertor. Pensou em chamar pela sua mãe. Mas o grito parou na garganta quando se lembrou da última vez que a chamara. Ela veio correndo, acendeu a luz e não havia nada no quarto. Nem embaixo da cama. Nem na janela. Ela se sentiu ridícula. Mas hoje era diferente. Havia algo no quarto. Não embaixo da cama. Nem na janela. Mas no quarto. Ora, que bobagem, na verdade existiam muitas coisas no quarto, claro. Ela tentou acalmar-se procurando identificar as sombras. A boneca velha. A vitrola. Os livros do colégio. O violão. A roupa pendurada no armador. Enquanto percorria os olhos pelo quarto respirava devagar. Pensou em cantarolar uma música. Mas, não, seria ridículo. Já era quase uma mocinha. O vento realmente parara.
O barulho embaixo da cama recomeçou. Um ruído leve. Quase imperceptível. Se não estivesse tanto silêncio. Procurou descansar de verdade. Esquecer tudo isso. Não havia ninguém no quarto e pronto. Não havia nada embaixo da cama. Como sempre. Ela sorriu e fez uma brincadeira tantas vezes repetida: fecharia os olhos, quando os abrisse, haveria apenas seu quarto, nada mais. Nenhum barulho estranho. Apenas o seu quarto. Fechou os olhos sorrindo.
Sentados na cama e espalhados pelo quarto estavam todos eles. Esperando pelo momento em que ela abrisse seus olhos.