Último instante

Era noite. O casal, já velhinho, passeava de braços dados sob um céu que esfriava rapidamente. Assim juntos, eram como dois rochedos que, sem saber porquê, tinham se encontrado no meio de um mar revolto. E assim completos passeavam, sem receio, por entre uma praça vazia e potencialmente perigosa, pois sabiam-se fortes. No meio daquele lugar eram como os postes e os bancos, as árvores e o lixo, parte da paisagem.
O que ninguém sabia, nem eles mesmos gostavam de pensar muito tempo no caso, era que não se suportavam no sentido mais clássico da palavra. Os quase cinqüenta anos de prisão estavam matando a golpes de machado o que sobrava de autêntico, dentro de cada um deles. Quantas vezes o velhinho não acordou em pé, ao lado da mulher, segurando de forma ameaçadora o travesseiro perto de sua cabeça, mas desistindo no último instante? Que a velhinha já pensou seriamente em despejar sabonete líquido no piso de borracha que cobria o chão do chuveiro? Toda vez que ela sorvia, lenta e irritante, o chá da xícara, produzindo um chiado insuportável, ele crivava os dedos por baixo da toalha da mesa, procurando evitar que a sua mão enrugada encontrasse a faca de partir queijo, jogada em cima da mesa. Quando ele limpava o pulmão, escarrando na pia da área de serviço e recostando a cabeça embaixo da torneira, era à velhinha quase, quase incontrolável o desejo de segurar-lhe os cabelos brancos naquela posição até que não houvesse mais ar. Só paz.
A velhinha esfregou as mãos e o velho, instintivamente protegeu-as por entre as suas, aquecendo-as. Ela sorriu um sorriso aéreo, perdido em divagações. “Um centavo por seus pensamentos”. Pediu o velho. “Melhor não”.Respondeu ela.
Assim juntos, perdidos numa noite deserta, eram como dois rochedos que tinham se chocado no meio de um mar calmo. E seguiram, por entre a praça, a caminho do que sobrara de seu futuro.